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Ithalo Furtado:Homenagem a Rubem Alves

Foi em um documentário da Cultura, há tempos atrás, que vi pela primeira vez aquele senhor, passeando por um jardim, falando que jamais devemos voltar aos lugares que fomos, de fato, felizes. Pois esses tais lugares que nos remetem ao sentimento máximo de uma felicidade vivida não têm o poder de incluir aquela mesma felicidade no ato de revisitá-los.

Esse senhor era o grande Rubem Alves.

Eram tempos de mudança e, por várias vezes, agarrei meu passado pelos pés com a certeza de que vivê-lo era o ideal para fugir do assombro do presente. Mas, Rubem estava certo e algumas teimosas lágrimas insistiram em salgar meu riso.

Dias depois, nos matinais passeios que faço na Livraria Nobel Parnaiba, me deparei com "Variações sobre o prazer" e comecei a folheá-lo. Sem pensar demais, comprei. E foi então que começou minha relação com Rubem, uma relação que transcenderia a literatura.

Virou exercício. Ao invés das caminhadas que normalmente as pessoas fazem para organizar as ideias e esparecer a mente, eu lia alguma crônica do "Variações sobre o prazer". Rubem é um escritor generoso e dividia suas posturas com citações de outros pensadores: Guimarães Rosa, Nietzsche, Cecília Meireles e Santo Agostinho foram alguns dos principais que ele citou nos enredos de suas magníficas crônicas.

Da leitura, passei a discussão. De cara, encontrei um parceiro "Rubeniano": meu grande amigo Daltro. Começamos a compartilhar textos, frases, pensamentos, posturas, opiniões, mistérios e não foram poucas as vezes que citamos, nas conversas de mesa de bar, algum trecho de quem agora havia se tornado meu cronista de cabeceira, o cara que me fez enxergar Deus da maneira mais linda que alguém pode imaginar.

Passados quase dois anos que conheci a obra de Rubem Alves, lanço o meu primeiro livro. Alguns meses após do lançamento, compartilho com alguns amigos o desejo que o mesmo chegue às mãos de Rubem, mesmo que ele não leia. Uma dessas pessoas foi outra grande amiga, Karina, da Nobel, que de imediato se prontificou a intermediar com sua editora. Era mais um sonho que eu iria realizar. O sonho de ver meu livro nas mãos de um dos meus ídolos.

Mas, Rubem virou o pássaro que ele tanto acreditava. Rubem, silenciosamente, transcendeu as borboletas e se tornou luz. Encontrou a sabedoria que, como ele mesmo dizia, não se aprende nos livros, mas, já se encontra conosco, apenas não passeamos conscientes por ela. Rubem agora pode entregar, em mãos, a sonata de Mozart e o poema de Fernando Pessoa a Deus.

Rubem reencontrou o paraíso com a urgência da eternidade.

    Fonte: Ithalo Furtado
    Foto: Divulgação
    Edição: Walter F. Fontenele/PortalPhb
    Postada dia 20/07/2014 às 11:24