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Opinião:O magistério é um sacerdócio?

Uma das profissões mais nobres e mais difícil de ser exercida, o magistério aqui no Piauí sempre foi relegado a segundo plano por sucessivos governos, que nunca deram a devida importância à educação e por isso mesmo condenaram o estado a um atraso crônico e quase insuperável.

Nenhuma nação, nenhum estado, pode alcançar o almejado desenvolvimento sem investimentos em educação pública de qualidade, sem a valorização do trabalho do professor e sem escolas bem estruturadas e equipadas. Em nosso estado, em praticamente nenhuma administração, se observou essa preocupação por parte de nossos governantes.

Até bem pouco tempo, propagava-se a ideia cretina de que o magistério era um sacerdócio, que o professor tinha que se dedicar à causa da educação, sem se preocupar com o salário, como se ele não tivesse família para sustentar, o aluguel da casa para pagar, as contas de água e energia, despesas com saúde, vestuário, transportes, capacitação profissional, lazer e outras necessidades. O professor era tratado como se fosse um pária da sociedade.

Esse quadro começou a mudar a partir dos anos 60, quando os educadores piauienses começaram a perceber que, desunidos e dispersos, não alcançariam nenhuma conquista, muito menos o respeito de nossos governantes. Eram massacrados e não reagiam. Muitas vezes aquilo que era um direito da classe era encarado por muitos como um favor do governo.

Foi ai que decidiram revitalizar o Sindicato dos Professores da Escolas Particulares, que existia, mas era apático, e criaram a Associação dos Professores do Ensino Médio Oficial do Estado (APEMOP), depois APEP, hoje Sinte-PI.

Desde então memoráveis lutas foram travadas pela categoria em busca do reconhecimento do seu trabalho. Muitos profissionais da educação pagaram caro pela coragem de reivindicar os seus direitos durante governos obscurantistas e atrabiliários, que jogavam a polícia contra os manifestantes, perseguiam e intimidavam os professores. Muitos deles foram presos ou transferidos de suas escolas para locais distantes, ao arrepio da lei.

Foram tempos difíceis, mas a luta valeu pena. O exemplo dos bravos fundadores da APEMOP que lideraram duas greves vitoriosas nos anos 60, que culminaram em substancial aumento de salário nas redes privada e pública de ensino, despertaram na categoria o sentimento de que era necessário lutar por seus ideais.

Registremos, por oportuno, que só em três momentos da nossa história, o magistério piauiense, sem necessidade de fazer greve ou qualquer protesto, foi tratado pelo governo do Estado com o merecido respeito.

A primeira vez foi no governo do general Gaioso (1954-1958), quando o salário do professores do Liceu Piauiense e da Escola Normal foram equiparados ao de juiz, sem dúvida um gesto de respeito à categoria, que na hora dos reajustes salariais ficava sempre em segundo plano.

Outro momento marcante foi no primeiro governo Alberto Silva (1970-1974), época das grandes conquistas da categoria: Estatuto do Magistério, Concurso Público, Lei do Enquadramento, pagamento de diferenças salariais de 20, 30 anos, Lei do Salário Móvel, Clube do professor, entre outras.

Dirceu Mendes Arcoverde, médico humanista, que substituiu Alberto Silva no comando do Estado (75-78) , deu continuidade à política de valorização do magistério. É dessa época a construção da Colônia de Férias de Luiz Correia, Gabinetes Médico e Odontológico na sede da APEP. Foi um governante justo e respeitoso que dialogava com as lideranças da categoria.

Hoje, por ironia do destino, sob o governo do Partido dos Trabalhadores e de um ex-líder sindical, o magistério estadual é tratado como nos velhos tempos pelo inquilino do Palácio de Karnak, que faz tábula rasa da lei federal que criou o Fundef e se recusa a repassar para os professores os 60% dos precatórios previstos em lei.

O senhor Wellington Dias já bateu o martelo e disse que os precatórios no valor de R$ 1 bilhão e 600 milhões serão destinados ao Educar Piauí, uma programa elaborado pelos burocratas do governo, sem a participação do Sindicato dos Trabalhadores em Educação.

Não pode ser classificado de outra forma senão como eleitoreiro um programa a ser executado às pressas, em ano eleitoral, com vistas a fortalecer o esquema político do governo, assim como fizeram com os recursos dos empréstimos destinados a obras de infraestrutura e saneamento básico, desviados para a construção de calçamento em cidades do interior.

O Sinte-PI entrou com uma ação na Justiça para obrigar o governo de Sua Excelência repassar os 60% dos precatórios para o magistério, como estabelece a lei que criou o Fundef, mas se a Justiça não andar rápido de nada vai adiantar essa ação, pois o governo petista já autorizou a retomada 76 obras, 64 licitações e o início de 92 novas obras.

Depois de aplicar um calote nos professores, sem pagar o percentual de reajuste dos salários de 4,17%, relativo a 2019, e de 12,84% referente ao reajuste de 2020, o governador petista se recusa a receber a diretoria do Sinte-PI para discutir essa questão. Será vergonha ou simples arrogância do tiranete petista?

Por que tanta pressa em gastar o dinheiro, sem quitar a dívida com os professores? Em que lei Sua Excelência diz estar baseado para negar ao magistério os 60% dos precatórios do Fundef?

Custa crer que o Tribunal de Contas do Estado esteja de acordo com o governador nessa questão, mas é o que ele tem dito repetidas vezes. Que a Justiça seja rápida para não permitir mais um golpe contra o magistério.(Diário do Piauí)

Por:José Olímpio

Fonte: Portalphb
Foto: Divulgação
Edição: Walter F. Fontenele/PortalPhb
Postada dia 14/07/2020 às 17:58