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Arquivo de dor: Um pouco da histÁ³ria de Mario Fontenelle

Quando abriu as trÁªs ou quatro caixas de papelÁ£o, mala e destino de MÁ¡rio Fontenelle, a pesquisadora Raquel Cavalcante encontrou “um arquivo de dor”. O amontoado de equipamentos fotogrÁ¡ficos, peÁ§as de madeira, papÁ©is (uma infinidade de papÁ©is), fotos, papel-contato, negativos, slides e estojos de filme fotogrÁ¡fico revelavam com letras de amargura e de abandono a histÁ³ria do mais importante fotÁ³grafo da histÁ³ria da construÁ§Á£o de BrasÁ­lia.

Fazia bem pouco tempo que ele havia morrido. As caixas de papelÁ£o estavam num canto do Lar dos Velhinhos Maria Madalena, onde ele passou os trÁªs Áºltimos de seus 67 anos. Um pouco antes, atulhavam-se numa Variant encostada nos jardins do abrigo, lembra-se o fotÁ³grafo Francisco Gualberto. Todo o MÁ¡rio Fontenelle cabia dentro de um carro e ele jÁ¡ nÁ£o tinha uma perna, a esquerda, amputada por conta de uma gangrena. Sofrera um derrame que paralisara o lado esquerdo do corpo.

O homem esquelÁ©tico, cercado de equipamentos fotogrÁ¡ficos e de desilusÁµes, era o autor, nas palavras do fotÁ³grafo e antropÁ³logo Milton Guran, “da mais extraordinÁ¡ria fotografia do Brasil moderno, uma imagem seminal que simboliza o momento em que o brasileiro tomou posse efetiva do seu destino”.

A foto a que Guran se refere Á© a do cruzamento do Eixo Monumental com o Eixo RodoviÁ¡rio, o EixÁ£o, o sinal da cruz do projeto de Lucio Costa. “Se Fontenelle nÁ£o tivesse feito mais nada no mundo, durante a vida inteira, se tivesse feito sÁ³ essa foto, ele jÁ¡ era merecedor de um lugar de primeira grandeza na histÁ³ria da fotografia brasileira”, continua Guran. “Por essa cidade passaram centenas de fotÁ³grafos (durante a construÁ§Á£o), mas sÁ³ um teve o acaso, a sorte, a percepÁ§Á£o e a presenÁ§a de espÁ­rito de dizer ao cara do aviÁ£o: ‘Volta, que eu vou fazer essa foto!”.

Era esse o homem que esperava a morte no Lar dos Velhinhos e que completaria 90 anos de nascimento no prÁ³ximo 29, sexta-feira, e que serÁ¡ homenageado pelo Museu Vivo da MemÁ³ria Candanga e pelo Arquivo PÁºblico do Distrito Federal.

Á€ espera de nada alÁ©m do que viria depois do fim, Fontenelle recebeu uma inimaginÁ¡vel visita num dia da segunda quinzena de novembro de 1984. Depois de dez anos sem vir a BrasÁ­lia, Lucio Costa voltou Á  cidade que inventou. Como sempre se faz quando se reencontra um lugar ou alguÁ©m que ficou marcado em nossas vidas, doutor Lucio quis saber do destino de pessoas que lhe tinham sido importantes. Perguntou por MÁ¡rio Fontenelle e soube que ele estava num asilo. Quis visitÁ¡-lo.

Numa manhÁ£, cedinho, Lucio Costa, os arquitetos Haroldo Pinheiro, Adeildo Viega de Lima e Maria Elisa Costa rumaram para o Maria Madalena. Entraram no quarto 18, que Fontenelle dividia com dois outros velhos. O fotÁ³grafo nÁ£o sabia da visita. “Quando ele viu doutor Lucio entrando no quarto ficou perplexo, mas imediatamente comeÁ§ou a conversar. Me lembro que ele jÁ¡ estava com dificuldades de movimento de um braÁ§o (o esquerdo), mas deitado na cama conseguia achar tudo o que queria. Foi sacando mochilas de debaixo da cama e tirando fotos. Num determinado momento, puxou uma escala (rÁ©gua triangular usada em arquitetura). Ela jÁ¡ estava amarelada pelo tempo”, contou Pinheiro.

“O senhor se lembra disso?”, perguntou Fontenelle. “Á‰ uma rÁ©gua de escala”, respondeu Lucio Costa, sem entender muito bem a razÁ£o do objeto e da pergunta. “Roubei do senhor na Novacap e atÁ© hoje guardo de lembranÁ§a do senhor.” Caiu um silÁªncio sobre o quarto. Quase encostados na parede, paralisados, como se assistissem a uma celebraÁ§Á£o, estavam os trÁªs acompanhantes de Lucio Costa. Conversaram um pouco mais, Maria Elisa fez a foto que depois foi publicada em Registro de uma vivÁªncia, autobiografia de Lucio Costa e os dois homens, o fotÁ³grafo com 65 anos, e o arquiteto, com 84, se despediram. Para sempre.

Sob silÁªncio, os quatro visitantes caminharam atÁ© o Fusquinha de Haroldo Pinheiro atÁ© que Lucio Costa botou a mÁ£o no bolso e sacou trÁªs fotografias da construÁ§Á£o de BrasÁ­lia. “Ele roubou a minha escala, e eu roubei as fotos dele”, e sorriu.

Á‰ muito provÁ¡vel que essa tenha sido a Áºltima grande alegria de MÁ¡rio Fontenelle, a de ser vÁ­tima de um furto praticado por Lucio Costa. Dois anos depois, em 23 de setembro de 1986, morria o fotÁ³grafo que registrou os primeiros movimentos do nascimento de uma cidade e de um paÁ­s atÁ© entÁ£o apartado de si mesmo. Talvez fosse por ter noÁ§Á£o de sua importÁ¢ncia histÁ³rica e do esquecimento a que havia sido condenado que MÁ¡rio Fontenelle guardava tanto amargor.

Ele nunca tinha sido uma pessoa de fino trato. Quem conviveu com ele de perto, jÁ¡ no perÁ­odo pÁ³s-Juscelino, lembra-se de um Fonte (era como os amigos o tratavam) “irascÁ­vel, grosso, mal-educado, cheio de mania”, conta Guran, um dos fundadores da Ágil e da UniÁ£o dos FotÁ³grafos, agÁªncia de notÁ­cias e entidade que, nos anos 80, se aproximaram de Fontenelle para tentar resgastar o valor histÁ³rico de seu trabalho. “Ele brigava com todo mundo. SÁ³ nÁ£o brigou comigo porque eu nÁ£o briguei com ele”, lembra-se Guran.

A queda havia sido grande. Antes considerado “uma autoridade”, como definiu o arquiteto JosÁ© Manuel Kluft Lopes da Silva em depoimento ao Arquivo PÁºblico do Distrito Federal em 1989, Fontenelle havia se transformado num indigente. No acervo que deixou no Lar dos Velhinhos, hÁ¡ registros de dias de muita glÁ³ria. Conviveu com dois presidentes da RepÁºblica, Juscelino e JoÁ£o Goulart, de quem ganhou duas mÁ¡quinas fotogrÁ¡ficas Laika. Cobriu a posse de JK no PalÁ¡cio do Catete, tinha acesso aos palÁ¡cios presidenciais com a facilidade que hoje nem mesmo um ministro de Estado tem. Sentia-se, de algum modo, amigo de Juscelino. “Comigo existia um trato: para ele eu era cego, surdo e mudo”, declarou Fontenelle no conciso depoimento ao Arquivo PÁºblico. Ou seja: ele via e ouvia mais do que o necessÁ¡rio para um fotÁ³grafo. Recebia bilhetes de Maria Teresa Goulart, mulher de Jango.

Filho do delta do ParnaÁ­ba, PiauÁ­, e de Manoel Moreira Fontenelle e Maria JosÁ© Dias Fontenelle, MÁ¡rio fez apenas o curso primÁ¡rio. Á‰ o que se depreende pelas letras toscas e grafia incorreta dos muitos de seus reveladores escritos deixados no arquivo de dor (que hoje estÁ¡ guardado no Museu Vivo da MemÁ³ria Candanga). Antes dos 20 anos, jÁ¡ era mecÁ¢nico de pista de aviaÁ§Á£o nos ServiÁ§os AÁ©reos Condor, que mais tarde se transformaria na Cruzeiro do Sul. Na dÁ©cada de 40, mudou-se para o Rio de Janeiro.

Fonte era homem bonito, 1,70m , olhos verdes, rosto anguloso, boca e queixo bem desenhados. SÁ³ as orelhas de abano quebravam um pouco a envergadura de galÁ£, mas nÁ£o o impediram de se casar com Carmen AndrÁ©a Paes Leme, em 1945, aos 26 anos. Logo depois, jÁ¡ era mecÁ¢nico de motores. Em 1946 nasceu a Áºnica filha, Sandra Sybila Fontenelle, e, no ano seguinte, se separou da mulher. Dados pontuais que emergiram das caixas de papelÁ£o.

NÁ£o se sabe em que exato momento MÁ¡rio Moreira Fontenelle descobriu a fotografia. Mas hÁ¡ o registro de um encontro que mudaria a vida do mecÁ¢nico de motores. Foi em 1954, quando comeÁ§ou a trabalhar como mecÁ¢nico do aviÁ£o do governador de Minas Gerais, Juscelino Kubitschek. Dois anos depois, jÁ¡ carregava uma mÁ¡quina fotogrÁ¡fica na comitiva do presidente da RepÁºblica. E aterrissava em BrasÁ­lia com uma Kapsa, amadora, sem controle de velocidade, como conta o jornalista Jarbas Marques, ex-diretor de PatrimÁ´nio HistÁ³rico e ArtÁ­stico do DF. Foi com essa mÁ¡quina que Fontenelle fez a foto “do gesto primÁ¡rio de quem assinala um lugar ou dele toma posse”, nas palavras de Lucio Costa. Jarbas Marques observa que era preciso ter experiÁªncia de voo para dar conta de, naquelas condiÁ§Áµes e com aquele equipamento, fazer a foto do cruzamento dos eixos.

Vale contar que Fontenelle gostava de aquecer o corpo com um destilado. O fotÁ³grafo Wilson Otaviano de Lima contou ao Arquivo PÁºblico que Fonte abastecia com cachaÁ§a e rum as latinhas de alumÁ­nio de filmes fotogrÁ¡ficos. Quando lhe perguntavam o que era aquilo, dizia que era “filme lÁ­quido”, e ria, lembra-se o fotÁ³grafo AndrÁ© Dusek, do jornal O Estado de S. Paulo.

Os filmes lÁ­quidos que confortavam continuamente MÁ¡rio Fontenelle de nenhum modo o impediram de registrar os momentos mais importantes da construÁ§Á£o de BrasÁ­lia e, mais que isso, o cotidiano dos candangos. Fontenelle tinha “extrema sensibilidade para os assuntos populares”, observa Milton Guran. Basta ver o livro Minha mala, meu destino, publicado em 1988 pela GrÁ¡fica Brasiliana para distribuiÁ§Á£o como brinde aos clientes. Os candangos saem da mala, andam de bicicleta, espremem-se nos refeitÁ³rios, carregam vergalhÁµes nos ombros. “Quantas toneladas de ferro este homem transportou do canteiro de obras?”, pergunta Fontenelle em texto que escreveu atrÁ¡s da foto de um peÁ£o de obra.

Era um fotÁ³grafo que registrava suas impressÁµes no verso do papel fotogrÁ¡fico ou em folhas esparsas. Escrevia em letra de forma, textos muitas vezes desconexos, em linhas que iam caindo para a direita, como se estivesse escrevendo e desenhando ao mesmo tempo. NÁ£o punha BrasÁ­lia no cabeÁ§alho. Escrevia “Terra” e registrava o ano em algarismo romano. TambÁ©m anotava impressÁµes (poemas?) em filmes fotogrÁ¡ficos. E guardava uma foto da filha, ainda menina, como se recorda Raquel Cavalcante, coordenadora do Minha mala, meu destino (tÁ­tulo tirado de um escrito do prÁ³prio Fontenelle).

Todos quantos conviveram de perto com ele sabiam da paixÁ£o que tinha pela filha, Sandra Sybila Fontenelle. Costumava contar que ela falava quatro idiomas, o que se comprova em cartas que ela escreveu para o pai e que estÁ£o guardadas no Museu Vivo. Cartas de muito amor de um pelo outro e de uma dolorosa aproximaÁ§Á£o. Na mais antiga delas, de 1979, Sandra manifesta seu ressentimento para com o pai, e de como se sentiu abandonada tanto por ele quanto pela mÁ£e. Um ano depois, Á© outro o tom da carta. Á‰ de reconciliaÁ§Á£o e de profundo amor pelo pai ausente. Ela o chama de MÁ¡rio e Á  mÁ£e, de Carmen AndrÁ©a. Conta de um sonho que teve, os dois, pai e filha: “VocÁª estava no MaracanÁ£, entre a multidÁ£o, e eu estava dando aula no gramado, depois comeÁ§o a subir aquelas escadas de cimento, num degrau estava uma bolsa de fotÁ³grafo com um presente para mim, olha, vi vocÁª perto, aÁ­ nÁ³s sorrimos e nos abraÁ§amos diante do estÁ¡dio cheio…”

Á‰ certo, pelo que se depreende das cartas de Sandra ao pai, que eles trocavam confidÁªncias e presentes, via postal, no comeÁ§o dos anos 80. Mas quando a pesquisadora Raquel Cavalcante a procurou no Rio de Janeiro, apÁ³s a morte de Fontenelle, Sandra nÁ£o quis muita conversa nem se interessou pelo livro que seria publicado. O Correio tentou localizÁ¡-la, na semana passada, mas nÁ£o conseguiu. Nesta semana, o Museu Vivo da MemÁ³ria Candanga continuarÁ¡ tentando encontrÁ¡-la. Sabe-se, pela internet, que defendeu tese de mestrado em histÁ³ria, em 1990, na Universidade Federal Fluminense. O tema foi o olhar exÁ³tico que os estrangeiros tÁªm sobre o Brasil. Pelo que contava nas cartas ao pai, Sandra viajava muito para o exterior a trabalho. Sempre adiava a vinda a BrasÁ­lia para ver o pai.

MÁ¡rio Fontenelle nÁ£o sabia cuidar de si mesmo. “Ele comia muito mal e tambÁ©m nÁ£o se protegia direito. Naquele tempo fazia muito frio e chovia muito aqui”, conta o jornalista Raimundo Nonato Silva, 90 anos, com quem o fotÁ³grafo trabalhou na revista BrasÁ­lia. NÁ£o se casou novamente, nunca teve uma moradia fixa — viveu durante alguns num quartinho do Hotel das NaÁ§Áµes. No inÁ­cio da dÁ©cada de 1960, uma abreugrafia constatou que ele tinha tuberculose. Em 1969, aposentou-se, com a ajuda direta de Lucio Costa, que enviou bilhete ao governo do Distrito Federal, pedindo agilidade na tramitaÁ§Á£o do pedido.

A maior parte dos objetos que estavam no arquivo de dor estÁ£o no Museu Vivo, que mantÁ©m exposiÁ§Á£o contÁ­nua do laboratÁ³rio de Fontenelle. Muitos dos negativos se perderam. Segundo o gerente de DocumentaÁ§Á£o NÁ£o-Textual do Arquivo PÁºblico, Marcelo DurÁ£es, perto de 70% das 4,5 mil fotos da histÁ³ria da construÁ§Á£o da cidade sÁ£o dele.

TrÁªs pessoas foram ao enterro de MÁ¡rio Fontenelle: o amigo e fotÁ³grafo Jankiel Goncvarovska, o fotÁ³grafo Salvio Silva (os dois jÁ¡ falecidos) e o diretor do PatrimÁ´nio ArtÁ­stico e HistÁ³rico do GDF, Silvio Cavalcante. Nem uma lÁ¡pide foi colocada no tÁºmulo.

    Fonte: Correio Braziliense
    Foto: Mário Fontenele
    Edição: Walter F. Fontenele/PortalPhb
    Postada dia 23/08/2013 às 11:47